Os Restauradores, Camillo Boito

Publicação da Conferência de Camillo Boito na exposição de Turim em 1884, acompanhada de um detalhado prefácio de Beatriz Mugayar Kühl, que contextualiza o pensamento de Boito na sua época, enquadrando-o com as filosofias de intervenção vigentes, nomeadamente de Viollet-le-Duc e John Ruskin.

Boito assumiu uma posição intermédia entre estas duas teorias, que defendeu em diferentes fases da sua carreira, na segunda metade do século XIX, nem sempre de forma coerente, acabando por distanciar-se e desenvolver uma metodologia própria que sistematiza princípios das duas tendências.

A aproximação a Viollet-le-Duc acontece com a valorização da arquitectura medieval enquanto verdadeiro estilo nacional (fenómeno comum um pouco por toda a Europa neste período). Nas suas obras iniciais Boito procurou a unidade de estilo, preconizando até a demolição de elementos barrocos. Mais tarde acaba por assumir os perigos desta forma de actuação, nomeadamente na criação de falsificações históricas.

Em relação a Ruskin, Boito identifica-se com o respeito pela matéria original e pelas marcas da passagem do tempo, mas distancia-se da possibilidade de “deixar morrer um edifício” (enunciada nas Sete Lâmpadas da Arquitectura), considerando que esta lógica abdica do dever de preservar a memória.

Os princípios que estabelece na conferência “Os Restauradores” acabaram por se tornar os alicerces das teorias de intervenção contemporâneas, consolidadas ao longo do século XX, nomeadamente:

1º É necessário fazer o impossível para conservar no monumento o seu velho aspecto artístico e pitoresco.

2º é necessário que os complementos, se indispensáveis, e as adições, se não podem ser evitadas, demonstrem não ser obras antigas mas obras de hoje.

Em escritos posteriores, nomeadamente no livro “Questioni Pratiche di Belle Arti” de 1893, detalha estes dois pontos, enunciando então sete princípios para enfatizar a diferença:

  1. diferença de estilo entre o novo e o velho
  2. diferença dos materiais de contrução
  3. supressão de linhas ou de ornatos
  4. exposição das velhas partes removidas na envolvente do monumento
  5. incluir em cada uma das partes renovadas a data da intervenção ou sinal convencionado
  6. epígrafe descritiva gravada sobre o monumento
  7. descrição e fotografias dos diversos períodos da obra expostas no edifício

Acima de tudo a filosofia de intervenção proposta por Boito assenta numa metodologia rigorosa que valoriza o levantamento, documentação e análise prévias à intervenção, assim como o registo rigoroso da mesma. Contribui assim para a consolidação de uma metodologia científica rigorosa, com análises sistemáticas baseadas:

  • no conhecimento histórico
  • em análises formais
  • nos aspectos técnico-construtivos
  • em estudos documentais
  • em levantamentos métricos

*Boito, C. (2002). Os restauradores. Cotia: Ateliê Editorial

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