Guimarães: a evolução da forma urbana da cidade e a criação do seu património edificado

Numa primeira tentativa de definir a tipo-morfologia sobre a qual trabalhar, comecei pela leitura do artigo sugerido pela Câmara Municipal de Guimarães a propósito do seu património edificado, da autoria de Bernardo Ferrão e José Ferrão Afonso.

Apresenta uma cronologia clara (apesar da ausência de peças desenhadas que seriam de grande utilidade) da evolução da cidade de Guimarães desde a sua fundação, a partir da criação do mosteiro dúplice de Nossa Senhora da Oliveira, entre 950 e 959, e, pouco mais tarde, do castelo no Monte Largo, até aos diferentes conceitos de desenvolvimento e valorização patrimonial do século XX. Relaciona os eixos de expansão da cidade, associados à rede viária, com as tendências culturais e arquitectónicas de cada período, contribuindo para uma leitura cronológica da cidade.

Para além do contributo para a datação e distinção entre as tipo-morfologias vimaranenses, é de salientar a referência ao “arrabalde de Pelames”, a hoje designada zona de Couros, já mencionado a partir de 1294 mas com maior desenvolvimento a partir do século XIV. Era então considerado o núcleo industrial mais importante da vila medieval, lugar onde “sapateiros, surradores e curtidores que trabalhavam nos pelames edificaram as suas habitações”. No final do século XVII, esta área da cidade era assim definida pelo Padre Torcato Peixoto de Azevedo:

…para baixo do Pelourinho está um burgo a que chamam rua de Couros pela fábrica deles que nele está e tem três ruas – uma de S. Francisco, outra de Couros e outra rio de Couros…

Em relação à habitação corrente, torna-se evidente uma evolução pela continuidade, com a sistematização gradual das diferentes características deste edificado ao longo dos séculos:

Até ao século XIII:

  • parcelamento denso
  • clara desproporção entre a frente e o fundo do lote (com profundidades duas ou três vezes superiores que a frente);
  • habitações térreas ou com um piso
  • construções em granito, madeira, barro e colmo (pontualmente utilização de telha)

Séculos XVI e XVII:

  • mantém-se a desproporção dos lotes e o tipo de parcelamento
  • estabiliza-se a altura dos edifícios: piso térreo + dois
  • substituição do colmo por telha nas coberturas, por resolução municipal de 1605
  • construções em madeira e taipa (de fasquio ou rodízio) sobre piso térreo em granito
  • três morfologias correntes, consoante a sua variedade formal: alpendradas, filipinas e de ressalto (a aprofundar em seguida)

Século XVIII:

  • mantém-se o lote e parcelamento medieval
  • mantém-se a escala do edifício seiscentista
  • utilização mais frequente de fachadas contínuas em granito
  • ausência de cornijas e preferência por largos beirais salientes

Século XIX:

  • proliferação do prédio de rendimento, de origem setecentista
  • mantêm-se genericamente as características de parcelamento anteriores
  • frequentemente edifícios com mais um piso: térreo + 3
  • maior número de vãos e vãos de maiores dimensões
  • revestimento das fachadas em azulejo

Em suma, verifica-se que a proporção dos lotes longitudinais se encontra já bastante definida desde a Idade Média, apesar de uma tendência posterior para a regularização dos alinhamentos das fachadas. Os materiais tradicionais de utilização corrente, originários do local, encontram-se também claramente definidos nessa fase. No período seiscentista parece residir o cerne da tipo-morfologia mais comum, com a estabilização da escala dos edifícios, das suas características formais e, sobretudo, das técnicas construtivas. Os séculos XVIII e XIV introduzem alguma variação, sem que, no entanto, se verifique uma ruptura com a matriz tipológica entretanto consolidada.

No que refere às características formais que diferenciam a habitação corrente seiscentista, os autores distinguem os seguintes três tipos:

Casas Alpendradas

Caracterizam-se pela indefinição entre os limites do espaço público e privado, já que os pisos superiores assentam sobre pilares que abrem galerias voltadas para os terreiros e praças; com origem medieval e maior difusão no século XVI; hoje apenas resta o alçado Sul da Praça da Oliveira.

Casas de Ressalto

Designação com origem no facto de os pisos superiores se debruçarem sobre a rua, com ressaltos mais ou menos acentuados em relação à fachada térrea; morfologia bastante frequente, sendo o exemplar mais paradigmático a Casa da Rua Egas Moniz, restaurada por Fernando Távora.

Casas Filipinas

Semelhantes às Casas de Ressalto, no entanto salientam-se pela sua decoração mais trabalhada, com molduras em cantaria clássicas o nível térreo, substituída por madeira nos pisos superiores mas com desenhos idênticos, com pilastras, mísulas e entablamentos; apresentam ainda varandas corridas em madeira, com balaústres torneados; o conjunto considerado mais notável encontra-se ainda hoje na Rua Camões, junto ao antigo mosteiro de São Domingos.

O próximo passo do processo será tentar identificar in loco alguns exemplares com estas características. O mapa diagramático esquematiza os principais eixos de expansão da cidade medieval e juntamente com a descrição do Padre Peixoto de Azevedo permitirá guiar este processo.

*Ferrão, B.; Afonso, J. (sem data). A evolução da forma urbana de Guimarães e a criação do seu património edificado. in Câmara Municipal de Guimarães

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