Habitar, Juhani Pallasmaa

Habitar é uma colectânea de textos, escritos por Juhani Pallasmaa entre 1995 e 2015, acerca do conceito de habitar no tempo e no espaço e a sua relação com a identidade e a memória.

O arquitecto finlandês, é autor de diversos textos acerca da relação da arquitectura com os sentidos e a sua obra Os Olhos da Pele é, juntamente com Atmosferas, de Peter Zumthor, uma das mais importantes reflexões acerca do papel da tectónica na percepção da arquitectura.

Pallasmaa começa por distinguir o conceito de casa do de arquitectura, considerando que o segundo implica generalização, distância e abstracção, enquanto que o primeiro se refere a algo concreto, íntimo e profundamente enraizado na existência humana. O habitar é considerado o meio fundamental através do qual nos relacionamos com o mundo, através da casa.

Este conceito de arquitectura encontra-se, na perspectiva do autor, duplamente ameaçado: por um lado a funcionalização excessiva, desprovida de significado, e por outro a estetização meramente formalista. Construímos casas que servem as necessidades físicas, até esteticamente apelativas e na moda, mas estéreis e incapazes de incorporar a memória, os sonhos – a identidade – dos seus habitantes. A comodidade e funcionalização excessivas esvaziam as formas de significado e dos seus sentidos simbólicos – limite, privacidade, receptividade, cortesia, dignidade… Resultam assim em experiências unicamente bidimensionais, sem cheiro, nem som, nem vivacidade, assentes na ilusão de uma existência na qual não é necessário experimentar a vida através das emoções e sensações.

Em oposição, o autor refere o conhecimento silencioso do dia-a-dia, que se armazena nos sentidos e no corpo, que não é moldado em palavras ou conceitos, mas através da experiência corpórea:

Eu enfrento a cidade com o meu corpo: as minhas pernas medem o comprimento do pórtico, e a largura da praça; o meu olhar projecta inconscientemente o meu corpo na fachada da catedral, onde vagueia entre cornijas e contornos (…); o peso do meu corpo encontra-se com a massa de uma porta e a minha mão agarra o puxador, polido por incontáveis gerações, à medida que entro no vazio que há por detrás. A cidade e o corpo complementam-se e definem-se mutuamente.

O espaço é mais do que os seus contornos físicos ou geométricos – é a estrutura de valores e significados do indivíduo, o fundamento da identidade colectiva e do sentido de comunidade, no que Pallasmaa designa de “espaço existencial”. A qualidade da experiência sensorial, o seu efeito e impacto, dependem da capacidade identificação do indivíduo com o objecto ou de se reflectir no objecto (arquitectónico), materializando o seu lugar no mundo.

O arquitecto tem como responsabilidade ética “devolver à técnica as suas conexões mentais e corporais ahistóricas e atemporais” (p.67) e “a defesa da autenticidade da vida e da experiência” (p. 73), pois:

“A beleza não é o oposto do feio, mas sim do falso”, escreveu Erich Fromm. Uma cultura que perde a sua ânsia de beleza, vai directa à decadência.

A contemporaneidade traz-nos um tempo nervoso, apressado, materialista. Vivemos “narcotizados pela comunicação em série” (p.82), sem a mínima implicação emocional. Em oposição as cidades antigas projectam um tempo lento, táctil, que materializa as instituições sociais e históricas e nos enraíza na continuidade do tempo e na evolução da cultura.

No seu ensaio mais recente, Pallasmaa termina com a reflexão acerca  da importância de reinventar a tradição, assumindo a continuidade da cultura, e do impacto do carácter e da qualidade da envolvente nos comportamentos e no desenvolvimento.

Um livro que oferece vários estratos de leitura, várias camadas de interpretação – a manter sempre por perto ao longo desta investigação.

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