Memórias de uma Cidade, Orhan Pamuk

Conheci Pamuk através do livro de Franco La Cecla “Contra a Arquitectura”, que inicia com a referência ao ensaio do escritor de Istambul “Por que não me tornei arquitecto”. A partir deste mote, reflecte sobre a arquitectura e a escrita: o que as aproxima – no caso de Pamuk a paixão pela sua cidade e respectivos espaços, construídos ao longo de gerações -, mas também o que as distancia – que La Cecla resume como “a arquitectura não sabe nada da essência narrativa de que os espaços são feitos” (La Cecla, 2008, p.20).

Istambul – Memórias de uma Cidade não integra esse ensaio mas, como narrativa autobiográfica que acompanha o escritor desde a infância, contribui para a compreensão evolutiva do pensamento de Pamuk, que viria a culminar nessa decisão.

Apesar de escrito por um “quase-arquitecto”, este não é um livro de arquitectura; não é um guia de viagem, apesar de o encadeamento do relato incitar a repetir os passos do narrador. Mas, apesar disso, é também um livro sobre arquitectura, sobre cidades e sobre a essência de que estas são feitas (p.274):

(…) uma cidade não é composta apenas pelas suas paisagens, mas também pelas cenas que representam o interior das casas.

Pamuk constrói o seu Palácio da Memória com as relações espaciais da cidade: é através dos percursos pelas grandes avenidas modernas ou pelos bairros pobres tradicionais, pelas diversas casas onde viveu e, sobretudo, pela omnipresença do Bósforo, que ordena e estrutura as recordações da vida doméstica. Ou, pelo contrário, serve-se das memórias da infância para guiar o leitor pela cidade, num “entrelaçamento singular de ruínas e de história, de vida e de ruínas, de história e de vida”, com o cenário “do antigo tecido urbano constituído por madeira e pedras” (p.324).

A Istambul de Pamuk não é bela ou exótica como um cenário das Mil e Uma Noites, pois “é preciso ser estrangeiro” para apreciar o pitoresco e o autêntico nos lugares “miseráveis mas ricos em escombros”, que “despertam [nos habitantes locais] mais o sentimento de pobreza, de impotência e de prostração do que de vitalidade e de beleza” (p.255). Mais do que uma vez, o autor reflecte acerca do carácter autêntico da cidade, que despoleta “louvores de desmedido entusiasmo lírico” (p.64), mas, ao ser desprovido do conforto contemporâneo, exige “já não se viver na cidade” para poder olhá-la de fora “como objecto considerado belo” (p.64).

No entanto, por vezes os habitantes vêem a sua cidade “através de filtro de óculos” alheios (p.257), na tentativa de se compreenderem a si próprios e criarem um imaginário colectivo (p.16):

As diversas coisas que fazemos na vida começam, com o tempo, a assumir a forma de recordação, e esta forma evocativa acaba por tornar-se mais real do que aquilo que realmente vivemos. Na maior parte das vezes, tal como acontece com a nossa vida, captamos o significado da nossa cidade através do que nos contam os outros.

É um livro interessante, que explora a ideia de que “o destino da cidade passa a fazer parte do carácter dos seus naturais” (p.14), reflectindo sobre as relações entre a vida doméstica (o habitar), a cidade, o património e a memória. Deixa também algumas pistas de leitura: “Da inutilidade e da inconveniência dos estudos históricos para a vida”, de Nietzsche, ou os epistológrafos urbanos e os seus contributos para a compreensão da cidade ao longo do tempo.

 Pamuk, Orhan(2008) Istambul – Memórias de uma Cidade. Lisboa: Editorial Presença

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