Tudo sobre a Casa, Anatxu Zabalbeascoa

Comprei o livro Tudo sobre a Casa, de Anatxu Zabalbeascoa e ilustrações de Riki Blanco, porque me pareceu um livro bonito (o meu interesse editorial tem destas coisas).

Atraiu-me também o prefácio do Professor brasileiro Whitaker Ferreira, acerca da importância da habitação para conhecer e tentar compreender a evolução da sociedade. Começa assim (p.7):

Se um historiador resolvesse, daqui a cem anos, estudar os interiores das habitações […] neste começo de século, que impressão teria da nossa sociedade? Seria ele capaz de entender, a partir de um objecto de estudo tão específico, a complexidade com que se dá a produção das nossas cidades e a apropriação de seus espaços?

Reconhecendo que os estudos arquitectónicos sobre a habitação se debruçam mais frequentemente sobre os aspectos construtivos e técnicos do edifício, Whitaker Ferreira salienta a importância de compreender também “as dinâmicas da vida que ali ocorrem” (p.11). A forma como os hábitos quotidianos manifestam os costumes sociais e os avanços da ciência, molda os espaços a cada momento histórico. Como refere Anatxu Zabalbeascoa, na Introdução (p.15):

Pode conhecer-se a história da civilização tanto pela análise das suas batalhas como pela observação dos seus hábitos privados.

Em termos de reflexão teórica, a introdução e o prefácio constituem os capítulos mais interessantes de Tudo sobre a Casa. A Introdução oferece uma leitura cronológica da evolução do pensamento sobre a casa e o habitar humano, na perspectiva de diversos autores, alguns deles identificados nas referências sobre a vida doméstica. Entre estas perspectivas, destaco a ideia de Brecht “habitar é deixar rastro”, expressa no Manual para Habitantes das Cidades. O título é sugestivo e inspira a próxima leitura sobre este tema.

Os restantes capítulos do livro estão organizados por compartimento e sistematizam, com ordenação cronológica, os principais acontecimentos e mudanças na conduta social que conduziram à transformação da apropriação dos espaços ao longo do tempo, até aos nossos dias. Os exemplos mais paradigmáticos serão a casa de banho e a cozinha – o primeiro devido às mudanças nos hábitos de higiene e às preocupações com a saúde pública; o segundo devido à evolução tecnológica que tem permitido fazer cada vez mais em menos espaço e tempo.

Apesar de apresentar factos curiosos e de constituir uma leitura agradável, do ponto de vista da investigação revela-se pouco operativo: tom demasiado informal, factos pouco aprofundados, referências incompletas que dificultam a tarefa de encontrar informação mais detalhada sobre o assunto (quem disse? quando? onde?). As ilustrações são bonitas, mas as referências visuais ao longo do texto são tão frequentes que a ilustração é manifestamente insuficiente. Uma leitura completa exige o acompanhamento com pesquisas na internet acerca dos projectos mencionados ou uma cultura visual e arquitectónica alargada, que a dispense. Neste caso, a superficialidade e informalidade da crónica não são coerentes com as expectativas colocadas no leitor.

 

*Zabalbeascoa, Anatxu. (2013). Tudo Sobre a Casa. São Paulo: Gustavo Gili.

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