Recomendações para a Análise, Conservação e Restauro Estrutural do Património Arquitectónico: Guião

Reconhecendo que “a falta de recomendações claras pode resultar facilmente em ambiguidades e decisões arbitrárias” (p.11), os Princípios para a Análise, Conservação e Restauro Estrutural do Património Arquitectónico são complementados por um guião com o objectivo de “facilitar a comunicação entre os envolvidos” (p.11) e apoiar os trabalhos de conservação do Património.

Para fazer face à subjectividade implícita nas abordagens qualitativas essenciais à intervenção no Património, recomenda-se que todas as decisões sejam registadas e fundamentadas no Relatório de Avaliação. Este documento deve conter a análise crítica da segurança da estrutura antiga, mas também as incertezas nos dados assumidos e dificuldades encontradas no processo, indicando a fiabilidade das hipóteses admitidas. No momento da tomada de decisão “o veredicto deve ter em conta tanto o grau de precisão quanto o grau de precaução subjacente a cada decisão e deve ser baseado num raciocínio logicamente consistente” (p.25).

Apesar de ser destacada a importância da elaboração deste documento, o guião salvaguarda que deve ser tida em conta “a adequada utilização dos recursos financeiros, proporcional à complexidade da estrutura (…) e que considere o benefício real obtido através do conhecimento alcançado” (p.12).

As etapas envolvidas na elaboração de um relatório de avaliação são as seguintes:

  1. definição e compreensão do significado histórico e cultural da construção;
  2. Caracterização Construtiva – descrição dos materiais e das técnicas originais de construção
  3. Caracterização Histórica – investigação histórica abrangendo a vida completa da estrutura, incluindo modificações da forma e intervenções estruturais anteriores
  4. Inspecção – descrição da estrutura no estado actual incluindo danos, degradações e fenómenos em curso
  5. Diagnóstico – descrição das acções envolvidas, identificação das causas dos danos e das soluções a adoptar

As três primeiras etapas podem ser englobadas na designada Investigação Histórica, Estrutural e Arquitectónica, ou seja na caracterização do edifício. Tem como objectivo “compreender a concepção e a importância da construção, as técnicas e a mão-de-obra utilizadas na sua execução, as alterações posteriores tanto na estrutura como na envolvente e quaisquer ocorrências que possam ter causado danos” (p.13).

A quarta etapa corresponde à inspecção e diagnóstico do estado actual do edifício. Baseia-se na inspecção visual da construção (abordagem qualitativa) mas também em ensaios laboratoriais e in-situ, monitorizações e análises estruturais.  A inspecção visual do edifício tem como objectivos (p.13):

  • identificar degradação e danos;
  • determinar fenómenos não estabilizados;
  • classificar os danos quanto ao risco imediato;
  • identificar efeitos do meio ambiente sobre a construção.

Neste procedimento, deve prestar-se especial atenção a irregularidades geométricas e descontinuidades, zonas de concentração de danos (como zonas de esmagamento ou de fendilhação), assim como a manifestações de deficiente concepção ou manutenção do edifício.

Uma vez que os Princípios, anteriormente enumerados, recomendam que a intervenção deve actuar sobre as causas e não sobre os sintomas do dano, é necessário relacionar a degradação identificada com acções e fenómenos em curso (assentamentos das fundações, por exemplo). É neste ponto, correspondente à quinta etapa, que o Guião se revela particularmente útil. Apesar de não elencar de forma exaustiva anomalias e respectivas causas (como a obra de Appleton), expõe de forma sucinta e clara as diferenças entre acções mecânicas, químicas e biológicas, indicando também os principais sintomas associados.

O diagnóstico realizado na quinta etapa, é a fase em que “são tomadas as decisões sobre a necessidade e extensão das medidas de intervenção” (p.21). Deve combinar os resultados das etapas anteriores: associar danos visíveis na inspecção a fenómenos pontuais identificados na investigação histórica, ou associar acções químicas com os materiais descritos na caracterização construtiva, por exemplo.

O Icomos considera que ” a abordagem qualitativa desempenha um papel tão importante quanto a abordagem quantitativa” (p.20), pois “é a análise combinada da informação obtida em cada abordagem que pode conduzir ao melhor juízo” (p.22). Na tomada de decisão pode ainda considerar-se a comparação com estruturas semelhantes (p.23), valorizando assim a experiência adquirida, considerada “indispensável para o estudo de todo o património arquitectónico” (p.11):

A partir da observação do comportamento de diferentes tipos de estruturas, em vários estados de dano e degradação causados por acções diferentes (sismos, assentamento do terreno, etc.) e tendo sido adquirida experiência sobre a sua robustez e durabilidade, é possível extrapolar este conhecimento para prever o comportamento da estrutura em análise.

O guião está redigido de forma clara e permite tornar mais concretos os Princípios que constituem a primeira parte das Recomendações do Icomos para a Análise, Conservação e Restauro Estrutural do Património Arquitectónico. Permite sistematizar procedimentos, sobretudo para a fase de inspecção e diagnóstico, com indicação clara dos tipos de informação a considerar. Apesar disso não facilita a obtenção de resultados, por não estruturar modelos de inspecção, não caracterizar anomalias frequentes nem propor soluções de reparação, exigindo a consulta de literatura complementar.

 

ICOMOS. (2003). Principles for The Analysis, Conservation and Structural Restoration of Architectural Heritage. 14t General Assembly. Victoria Falls, Zimbabwe: ICOMOS

 

 

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