The Natural House, Frank Lloyd Wright

The Natural House reúne textos produzidos entre 1936 e 1954 por Frank Lloyd Wright, acerca da sua filosofia para uma arquitectura orgânica. 

A primeira parte do livro constitui a sua base conceptual, com reflexões acerca dos desafios colocados à sociedade moderna, no início do século XX – a habitação a preços controlados ou a natureza dos novos materiais e processos industrializados. Na segunda parte, a experiência prática do autor é sistematizada na forma de princípios práticos a considerar no projecto.

Arquitectura Orgânica

Frank Lloyd Wright define arquitectura orgânica como aquela que parte da ideia de abrigo, que se integra na sua envolvente natural e na qual a figura humana estabelece cada proporção. Apesar de dar resposta aos desafios de uma nova sociedade, o autor assume a relação com a tradição:”the farm had no negligible share in developing this sense of things in me” (p.16). Também a cultura oriental tem um papel preponderante na definição do conceito de arquitectura orgânica (p.222):

the idea of organic architecture [is] that the reality of the building lies in the space within to be lived in, the feeling that we must not enclose ourselves in an envelope which is the building.

 

penfield house frank lloyd wright
Relação entre o espaço interior e a envolvente natural, na Casa Louis Penfield (1955)

Integridade, continuidade e horizontalidade são conceitos utilizados frequentemente para descrever esta arquitectura.

O espaço desenvolve-se predominantemente através de eixos horizontais, “perceiving the horizontal line as the earth line of human life” (p.16) estabelece-se uma “quiet relationship with the ground” (p.17).

Horizontalidade do alçado frontal da Casa Staley (1954)

Esta horizontalidade permite a continuidade do espaço, a sua fluidez. Mas a continuidade não deve ser apenas espacial, mas também construtiva “in the concept of the building as a whole” (p.19). Mais do que a forma que segue a função, Frank Lloyd Wright considera que “the higher truth [is] that form and function are one” (p.19).

zimmerman house frank lloyd wright
Continuidade espacial e construtiva na Casa Zimmerman (1950)

Assim, a continuidade conduz à integridade do edifício, pois “there can be no organic architecture where the nature of synthetic materials or the nature of nature materials either is ignored or misunderstood” (p.22). A integridade expressa o princípio de que o crescimento não surge por mera agregação e que “no part of anything is of any great value in itself except as it be integrate part of the harmonious whole” (p.22).

Gramática

A aplicação dos conceitos anteriores (horizontalidade, continuidade, integridade) implica que “every house worth considering as a work of art must have a grammar of its own” (p.181). Esta gramática manifesta a articulação entre todas as partes e estabelece os critérios de decisão ao longo do processo:

Your limitations of feeling about what you are doing, your choice of materials for the doing (and your budget of course), determine largely what grammar your building will use. It is largely inhibited (or expanded) by the amount of money you have to spend, a feature only of the latitude you have. When the chosen grammar is finally adopted (you go almost indefinitely with it into everything you do) walls, ceilings, furniture, etc., become inspired by it. Everything has a related articulation in relation to the whole and all belong together; look well together because all together are speaking the same language.

O cliente

Também a relação com o cliente poderá ser uma condicionante à gramática do projecto (p.164):

The needs and demands of the average client should affect every feature of a house but only insofar as the clients do manifest intelligence instead of exert mere personal idiosyncrasy.

No entanto, apesar das profundas mudanças sociais e tecnológicas, Frank Lloyd Wright constata (p.27):

Plastered houses where then new. Casement windows were new. So many things were new. Nearly everything was new but the law of gravity and the idiosyncrasy of the client.

Carta de Frank Lloyd Wright acerca do projecto para a Johnson Research Tower, em 1948
Economia

Para Frank Lloyd Wright “the house of moderate cost is not only America’s major architectural problem but the problem most difficult for her major architects” (p.68). Para atingir os objectivos espaciais e de relação com o meio a que a arquitectura orgânica se propõe, algumas cedências devem ser feitas no sentido de reduzir ao máximo a mão-de-obra especializada em obra e simplificar os principais sistemas da habitação – aquecimento, iluminação e saneamento. Nove pontos são considerados essenciais para a redução de custos (p.73):

  1. Telhados visíveis são caros e desnecessários;
  2. A garagem não é necessária; um abrigo coberto com paredes dos dois lados é suficiente;
  3. A cave foi desde sempre um ponto de pragas – o edifício deve assentar sobre o terreno;
  4. Remates decorativos interiores não são necessários, pois são integrados nos próprios elementos;
  5. Eliminar radiadores e luminárias – o aquecimento deverá ser feito através do piso e a iluminação indirecta, a partir dos tectos, com excepção de pontuais luminárias de pé;
  6. Mobiliário é desnecessário pois as paredes devem ser feitas de modo a inclui-lo ou sê-lo;
  7. Sem qualquer tipo de pintura;
  8. Sem rebocos no edifício;
  9. Sem caleiras nem tubos de queda.
rosenbaum frank lloyd wright
Mobiliário integrado nas paredes da Casa Rosenbaum (1940)
Princípios para uma arquitectura orgânica

Os pontos atrás enumerados reflectem a filosofia proposta para uma arquitectura orgânica, integrada na envolvente mas também capaz de integrar na sua forma as funções necessárias ao bom funcionamento do edifício sem adição de elementos superficiais que interfiram com a sua leitura global. São aprofundados e justificados no capítulo “from the ground up”, que enuncia sucintamente os princípios a ter em conta no projecto, dos quais aqui se destacam alguns.

Onde construir
falling water casa da cascata
Casa da Cascata (1936) um dos exemplos mais emblemáticos da integração do edifício na Natureza

Decentralization is the order of this day. So go far from the city, much farther than you think you can afford. You will soon find that you never can go quite far enough.

A descentralização (p.136) permitirá usufruir da liberdade de viver em contacto com a natureza e de se relacionar com todas as manifestações de vida.

Que tipo de terreno
Implantação da casa em terrenos planos, como na Casa Muirhead (1950)

With a small budget the best kind of land to build on is flat land. Of course, if you can get a gentle slope, the building will be more interesting, more satisfactory. But changes of ground surface make building much more expensive.

Como iluminar a casa
Iluminação natural no interior da Casa da Cascata (1936)

The best way to light a house is God’s way – the natural way, as nearly as possible in the daytime and at night as nearly like the day as may be, or better.

O edifício deverá ser orientado entre 30 e 60º para Sul, para que todos os compartimentos da casa possam usufruir de luz natural (p.150) em algum momento do dia.

Iluminação artificial
Iluminação artificial indirecta na Casa Marden (1959)

Wiring for lights, as piping for plumbing and heating, should not show all over the house unless by special design – any more than you would have organs of your body on the outside of your skin. Lighting fixtures should be absorbed in the structure, so that their office is of the structure.

A cave

A house should – ordinarily – not have a basement . In spite of everything you may do, a basement is a noisome, gaseous, damp place. From it come damp atmospheres and unhealthful conditions.

Além dos problemas de salubridade (p.151), a construção de caves é cara, por exigir escavação profunda e a construção de uma nova laje, sobretudo tendo em conta o fim infeliz a que se destina.

O sótão

A house that is planned for a lot of problematic space or space unused to be used some other day is not likely to be a well-planned house. In fact, if you deliberately planned waste space, the architect would be wasted, the people in the house would be wasted. Everything would be probably go to waste.

Tal como a cave, o sótão é considerado espaço desperdiçado (p.157) por não fazer parte integrante da casa como um todo. Em alternativa, as funções atribuídas a estes espaços devem formar parte da própria casa.

Tipo de telhado
Bachman Wilson Frank lloyd wright
Frequentemente FLW adopta coberturas planas nos seus projectos, tal como na Casa Bachman Wilson (1956)

The cheapest roof, however, is the shed roof – the roof sloping one way, more or less. There you get more for your money than you can get from any other form of roof.

Pelas garantias de qualidade oferecidas pela inclinação do telhado – evitando naturalmente as infiltrações de água – o telhado de uma água é considerado o mais adequado (p.157), apesar das mais-valias identificadas à cobertura plana pela simplicidade de construção.

Pintura
Autenticidade dos materiais assumida no interior da Casa George Sturges (1939)

In organic architecture there is little or no room for appliqué of any kind. We use nothing applied which tends to eliminate the true character of that is beneath, or which may become a substitute for whatever that may be. Wood is wood, concrete is concrete, stone is stone.

Isolamento e aquecimento

When you have the floor warm – heating by gravity – insulation of the walls becomes comparatively insignificant. You may open the windows in cold weather and still be comfortable. In this case, overhead insulation is extremely important: heat rises and if it finds a place overhead where it can be cooled off and dropped, you have to continuously supply a lot of heat.

Aquecimento radiante tradicional da Coreia (Ondol), que inspirou FLW (Nonini, 1949)
Ar condicionado?

To me air conditioning is a dangerous circumstance. The extreme changes in temperature that tear down a building also tear down the human body. So air conditioning has to be done with a good deal of intelligent care. The less the degree of temperature difference you live in, the better for your constitutional welfare.

Apesar da importância de dar resposta às necessidades de conforto, Frank Lloyd Wright advoga que é preferível “to go with the natural climate than try to fix a special artificial climate of your own” (p.179), pois o clima relaciona-se com a vida e o comportamento natural do ser humano, que deve invariavelmente adaptar-se ao ambiente e às circunstâncias.

 

Datando as reflexões mais recentes de 1954 – há mais de 60 anos – a filosofia de Frank Lloyd Wright mantém a sua premência, ao antecipar questões ainda hoje não resolvidas pela arquitectura na procura de um meio construído mais sustentável e em equilíbrio com o ambiente, simultaneamente económico e flexível. De entre as soluções propostas ao longo deste livro destaca-se a construção em terra, as coberturas ajardinadas ou as soluções espaciais modulares, que se inspiram na tradição sem perder a actualidade.

 

*Wright, Frank Lloyd. (1963). The Natural House. New York: Mentor Books.

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